segunda-feira, 18 de outubro de 2010

2 am, L'amour.


Do alto de minha torre de cristal construída meticulosamente por minhas inúmeras decepções com o intuito de proteger-me de tipos encantadores como ele, eu o admirava.

E como era lindo vê-lo sentado na minha varanda com um copo de whisky numa mão e um cigarro na outra. As palavras que saiam de sua boca pareciam musica, e naquele momento eu quis ser a musica que ele cantava com todos os "toujours" que eu queria viver com ele.

Não sei se era a lua, a madrugada, ou a fumaça do cigarro dele, meio menta, meio canela, que fazia a atmosfera em volta dele se transformar num clipe sem nexo, meio filme europeu com um quê de romance antigo. Era ele, e era o cheiro dele, era o tom de voz dele sempre calmo, sempre doce, sempre tão cheio de certezas que bagunçavam a minha mente. Meu corpo pensando em formas de sair dessa torre e se jogar naqueles olhos castanhos tão convidativos, e minha mente impassível, combatendo todas as vontades, brigando para que a racionalidade vencesse. Afinal a mente sabe que sobra pra ela cuidar das rachaduras do coração em suas desventuras cheias de esperança. O coração esquece e está sempre pronto para escancarar a porta novamente, mas a mente nunca esquece de todos os tombos, das lágrimas, das dores em lugares que nem se sabia que eram possíveis doer.

A batalha estava sendo travada, meu desejo e meu bom senso transformaram-se em gladiadores enquanto ele alheio as minhas lutas internas bebia mais um gole de whisky e elogiava meu vestido. Ele dava mais um trago, e soltava levemente a fumaça e dizia que não havia nenhum lugar onde ele quisesse estar que não fosse ali sentado ao meu lado. Quando ele me olhava eu conseguia sentir o vento passando pelos cabelos dele até chegar em mim, trazendo consigo os perfumes que só ele tinha.

Ele é a personificação de todos meus desejos. É como se tudo que eu tivesse desejado em alguém estivesse ali em uma só pessoa. E dentro de mim fez-se duas. Uma sentia o vento no rosto, sentia a ânsia no peito e queria jogar-se em queda livre daquela torre, para então cair no colo dele novamente. Com as mãos dele no meu cabelo como sempre. Com o cheiro de brisa marinha que só se sente quando está perto dele. E a outra eu, que buscava armas imaginárias para defender ferrinhamente esse coração irresponsável de qualquer tentativa de invasão.

Ah, coração desassossega, o riso afrouxa. Tudo em mim salta, tudo em mim quer me revelar. Ele me olha, me chama, garante que me pega antes que eu caia. E ele tem mesmo aquele jeito de super herói que te faz querer se jogar nos braços dele para testar toda essa força.

Ás 2 da manhã eu me rendo, não há medo de se machucar que aguente todo esse "l'amour", eu declaro aos meus gladiadores internos uma treguá. Se meu coração tomar juizo, que meu juizo deixe meu coração sonhar um pouco. Pode? Pode eu me permitir só um pouquinho esticar essa noite, desejar que ela vire mais uma noite, e mais uma, e mais uma...

Eu dou uma trégua de toda a minha racionalidade e deixo você ficar mais um pouco. Como todos na minha vida eu sei que você também vai embora uma hora. Então por ora, eu abro a porta pra você, mas me prometa que a fechará quando sair. Pra que eu volte tranquila para minha torre de cristal, para mais uma temporada de cuidado e medicação necessária para meu coração.

Entro na sua ciranda, cantarolo sua musica, me apego as suas mãos, deixo meu corpo dançar no teu compasso e me esqueço de tudo que passei. Por ora, sou vontade morena de deitar no teu colo-confessionário. E me iluminar e te iluminar.

(Ouvindo "L'amour" - Carla Bruni )

5 comentários:

R;* disse...

"Então por ora, eu abro a porta pra você, mas me prometa que a fechará quando sair."
Nada de portas entreabertas, são elas que causam as feridas!
Nessa briga interna, sempre vence o coração, sempre merecemos uma nova chance, uma oportunidade pra ser feliz!
Beeeijo ;*

Karla Hack disse...

Me fez pensar em um artigo que li sobre como não se deve deixar sentimentos e decisões inacabadas em relacionamentos...
Maravilhosamente escrito.. E bela imagem!

;D

AninhaGR disse...

Lindo, romântico, poético. Contrastes: Medo e desejo. Parece um conto de fadas no qual a princesa, apesar de render-se, pensa muito antes de fazê-lo. Com receios de memórias de finais não tão felizes como se gostaria...
Beijo amoraaa!

Fernando disse...

Com certeza, uma das melhores descrições de como o amor se apresenta, nos sustenta, alimenta e abre e fecha ferida, que, quase sempre, não se aguenta.

Excelente!

Um beijo,
Fernando Piovezam
seuanonimo.blogspot.com

Beatriz Verissimo disse...

Super adorei, super romântico. Lindo blog :*